A ASSOCIAÇÃO
PRIMEIRA PESSOA
GUIAS
NOTÍCIAS
EDITORA PÚBLICA
REDE
CONTATO
ASSOCIE-SE
LOGIN
Jeduca | Associação dos jornalistas de educação
primeira pessoa - convidado

A cobertura pode ser diferente

21/06/2016

Tratamento da educação pela mídia combina oficialismo e visão pouco crítica do discurso de grupos empresariais; faltam mais atores nas reportagens, afirma Daniel Cara

Gustavo Morita / Revista Educação

A cobertura da educação na imprensa brasileira tem desafios específicos – e são esses desafios que a Jeduca pode ajudar a superar.

 

Em primeiro lugar, a cobertura jornalística no Brasil é marcadamente oficialista – e na educação esse é um problema um pouco mais grave. Quando há um governo forte, suas posições reverberam na imprensa com muita facilidade. Isso é natural em qualquer lugar do mundo, pois governos fortes têm iniciativa e poder de agendamento. Contudo, o que ocorre muito pouco por aqui é a devida problematização dos dados e das opiniões oficiais. Quando muito, há apenas um criticismo superficial – muito aquém da necessidade.

 

No caso brasileiro há um segundo fator, complementar e adicional: além do oficialismo, os anunciantes privados agendam demasiadamente os veículos de imprensa. E suas posições também não são adequadamente analisadas e problematizadas.

 

Como uma ilustração, durante os anos de ouro do lulismo, a cobertura jornalística da educação foi fortemente oficialista e também generosa com o mundo empresarial. Inegavelmente, o governo federal e os anunciantes privados se comprometeram com o tema, afirmando suas visões. Desde FHC, verdade seja dita, a educação ocupa um lugar relevante na agenda pública, mas nada comparável aos anos de 2006 a 2012.

 

A título de exemplo, a cobertura sobre o Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE) do então ministro Fernando Haddad, entre 2007 e 2010, foi altamente elogiosa. Por outro lado, por meio de análises, alguns atores da comunidade educacional previram um ocaso rápido do conjunto daquela política, que pretendia ser perene.

 

Hoje quase ninguém mais se lembra do PDE. E o problema não reside apenas na condenável descontinuidade das políticas públicas. Havia erros estruturais naquela proposta.

 

Além do oficialismo e da superexposição dos anunciantes privados e seus agregados, a qualidade da cobertura em educação também é prejudicada pelo próprio processo de trabalho no jornalismo.

 

Quase todo jornalista exerce seu trabalho em uma linha de produção precária e estressante, que não permite a apuração e tampouco o aprofundamento de temas por meio de investigação. Nesse caso, como em qualquer área, o repórter fica totalmente dependente da fonte.

 

A pressa (ou a pressão) somada a fontes com declarações e análises genéricas (e pouco especializadas em pedagogia, por exemplo) resultam em matérias frágeis. Normalmente, é isso que explica a mesmice e a abordagem pouco aprofundada (no nível do senso comum) recorrentes na cobertura da educação.

 

É dolorido assumir, mas, sem formação continuada especializada para os jornalistas, é a fonte quem acaba formando-os. É o que ocorre na educação. Ou seja, curiosamente, guardadas as devidas proporções, as carências formativas dos repórteres não são tão diferentes das dos professores – o que vale uma sincera e humilde reflexão.

 

Diante desse cenário, a cobertura fica desequilibrada: por muito tempo, além dos governantes (em períodos de governos fortes), as fundações e movimentos empresariais – vocalizadores dos anunciantes privados nas pautas da educação – foram as principais fontes dos principais veículos.


Com recursos financeiros, os representantes da visão empresarial, habilmente, realizaram cursos de formação em educação para jornalistas. Ou seja, souberam responder a carência e a demanda por especialização, mas ofertaram processos formativos com conteúdos claramente direcionados aos seus interesses.

 

O jogo é esse e está distante de ser justo. A economia a tudo coloniza, diria Habermas, com inegável razão. Porém, ao longo do tempo, abrem-se brechas. Vez ou outra o repórter precisa buscar outra fala, outra perspectiva.

 

De repente, um assunto indigesto para as fundações ou movimentos empresariais é pautado, como é o caso do financiamento da educação. Ou é reconhecido o protagonismo de outros atores na confecção de políticas educacionais, como as entidades e movimentos da sociedade civil, com falas e posições muito diferentes daquelas expressas pelas ações coletivas de base empresarial. Nesses momentos, surgem oportunidades e o campo se torna mais diverso e fértil.

 

Enfim, a cobertura da educação pode ser mais equilibrada, melhor e diferente, inclusive dando o justo destaque às falas de pesquisadores, professores, pais e alunos. E esse deve ser um objetivo da Jeduca: colaborar para uma cobertura significativa e diversificada, que aprofunde a qualidade do debate público em educação, sabendo sobrepor a razão pedagógica à razão mercantil, que domina boa parte das matérias.

 

Atalhos equivocados e a busca por balas de prata como remuneração por resultados; a fé em políticas exclusivamente pautadas por avaliações de larga escala que carecem de confiabilidade estatística; a emergência hodierna da centralidade das habilidades socioemocionais; a mimetização do processo de ensino-aprendizagem por meio de protocolos; e as políticas que servem para justificar evidências (e não o inverso) são alguns exemplos de discursos, visões e propostas muito reverberadas na imprensa nacional, mas que podem levar o Brasil a lugar algum em termos educacionais. Não se deve deixar de abordá-las, mas elas precisam ser devidamente analisadas nas matérias, com o necessário contraditório.

 

Se quiser qualificar a atividade jornalística na educação, um dos papeis da Jeduca é viabilizar uma formação problematizadora, ir além do necessário monitoramento crítico da cobertura na área e garantir uma atuação plural e em rede entre jornalistas de todo Brasil, capazes de questionar verdadeiramente suas fontes. Há muitos modos de se fazer isso, o que exige um contínuo processo de diálogo e construção conjunta com muitos atores.

 

A associação, por si só, é uma iniciativa louvável. É uma ação coletiva de jornalistas que querem se comprometer ainda mais com a realização do seu trabalho e, por consequência, colaborar para a melhoria da qualidade do debate educacional no país.

 

Se souber ir além do trivial, a Jeduca influenciará tanto a agenda nacional como também pode servir como um bom e inédito exemplo no âmbito internacional, indo além das demais associações de jornalistas ao redor do mundo.


* Daniel Cara é doutorando em educação (USP), mestre em ciência política (USP), coordenador geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação e blogueiro do UOL

apoiadores
Itau Social
Itau
Instituto C&A 25 anos
Telefonica Fundação / Vivo
Fundação Lemann
CENPEC
Campanha Nacional pelo direito à educação
Parto Lauand
Todos pela educação
Instituto Ayrton Senna
Instituto Unibanco
Fundação Roberto Marinho
OEI
ABRAJI
Cooperação reperesentação do Brasil
JeffreyGroup
primeira pessoa