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Jeduca | Associação dos jornalistas de educação
primeira pessoa - bastidores

Apuração de 17 horas garantiu furo sobre roubo do Enem

23/06/2016

Em um dia de trabalho, jornalista Renata Cafardo descobriu e escreveu reportagem que causou, em 2009, cancelamento do maior vestibular do país

José Patrício / Estadão Conteúdo

Em 2009, fiz a reportagem mais importante da minha carreira. Eu e meu colega Sergio Pompeu, então repórteres de O Estado de S. Paulo, revelamos o roubo da prova do Enem, no primeiro ano em que ele valeria como um grande vestibular. Não foi uma matéria investigativa no estilo Spotligth. Foi, sim, uma reportagem com uma história sensacional, mas feita em um só dia.

 

Um dia que começou pra mim às 7h30 na redação do jornal, onde eu também atuava como chefe de reportagem. Eu chegava cedo para organizar as pautas da editoria de Geral e, como era a semana que antecedia o Enem, resolvemos que teríamos diariamente matérias sobre a prova. Naquele ano, 4 milhões de estudantes haviam se inscrito para o Enem, um recorde.

 

Logo que liguei o computador, vi um recado no meu email: alguém havia me procurado pelo telefone na noite anterior, quando eu já havia ido pra casa. Essa pessoa, segundo a mensagem, tinha o gabarito do Enem. Aquilo não fez sentido pra mim. Por que alguém com o gabarito do Enem ligaria para um jornal e não para um cursinho se pretendia ganhar dinheiro com isso? Será que havia se enganado? O recado dizia que essa pessoa me ligaria novamente e eu passei cada minuto do dia ansiosa por esse contato.

 

Por volta das 15 horas, o telefone tocou. Vi um número desconhecido na bina, e uma voz masculina perguntou por mim. Ele avisou que o que tinha, na verdade, era a prova do Enem, e não as respostas. Meu coração de repórter disparou. Passei a fazer perguntas para checar com meu interlocutor algumas informações que eu sabia que haveria na prova, como logotipo do consórcio contratado para realizar o exame. Ele confirmou. Parecia real. Não dava para esperar. Sugeri um encontro poucas horas depois para ver o que ele tinha em mãos. Ele topou. Deixou claro que sua intenção era negociar um valor, mostrar o produto valioso para conseguir a grana mais alta que pudesse.

 

É incontestável que o jornal O Estado de S. Paulo não negocia informação. Não havia qualquer dúvida de minha parte de que não pagaríamos para eles. Mas sabia que só o fato de esse homem ter a prova – que deveria estar sob sigilo absoluto – era uma informação bombástica e gratuita para um jornalista. E eu precisava confirmá-la pessoalmente.

 

Quando informei à direção do jornal sobre a conversa que tive com o homem misterioso (ele não deu sequer um nome, só peguei um número de telefone), começou uma sequência de reuniões sobre como eu deveria proceder para poder agir com segurança e deixar claro que não pagaríamos pela informação. Eu só me preocupava em TER a informação, mas a chefia do Estadão foi cuidadosa em me instruir como agir. Pediram que meu amigo Sergio Pompeu fosse comigo ao encontro. Também recrutaram um repórter fotográfico, caso fôssemos autorizados a fazer uma imagem da prova. Outro fotógrafo ficaria do lado de fora, registrando o encontro.

 

Fomos para um café na Avenida Sumaré, região de classe média na zona oeste de São Paulo. Os dois homens chegaram com a prova embaixo do braço. Não deixaram que o material fosse fotografado. Com as mãos tremendo, pude apenas folhear página por página de um dos cadernos. Imersa naquele ambiente tenso e cheio de adrenalina, tive a ideia de decorar algumas questões – o que se revelou crucial horas mais tarde. Os homens – que dias depois descobri que haviam roubado o exame da gráfica – foram cordiais conosco. Só mudaram o tom quando pedi para ver mais do que já haviam me mostrado e perguntei sobre o tema da redação. Naquela mesa de café, já tive certeza de que o Enem havia vazado, aquela era a prova que seria aplicada aos milhões de estudantes dali a quatro dias.

 

Apesar das recomendações da chefia de que deveríamos avisar claramente que não pagaríamos, despistamos os dois homens com conversas vagas sobre negociação do conteúdo e ficamos de ligar no dia seguinte. Temíamos que eles tentassem vender o material para outro veículo se mostrássemos que não tínhamos interesse no “negócio”. Já tínhamos tudo o que precisávamos. Havíamos visto o Enem. E só queríamos agora uma noite pra contar essa história. Na época, não havia tanto investimento em sites de notícias e, por isso, a matéria tinha que ser publicada no papel para ter mais repercussão e impacto. Eles queriam R$ 500 mil. Nós não pagamos R$ 1 e demos um grande furo.

 

De volta à redação, já por volta das 20h, passamos para a segunda fase da reportagem – comprovar que a prova que havíamos visto era, de fato, o Enem que o MEC mantinha em cofres. Liguei para o então ministro da Educação, Fernando Haddad. Contei as questões que havia decorado. Assustado e incrédulo, mas prestativo, ele disse que não havia visto a prova por questões de segurança. Era preciso abrir o cofre para checar se as informações batiam. Podia ser um exame falso, um simulado. A operação foi requisitada pelo ministro, mas era demorada. As horas passavam, e a confirmação do MEC não chegava.

 

Para ganhar tempo, começamos a escrever a matéria como se já tivéssemos a confirmação. Já eram 23h e o último fechamento seria por volta da meia-noite. Eu falava com o ministro de meia em meia hora e ele avisava que ainda não tinham encontrado o funcionário certo – só duas ou três pessoas no MEC tinham acesso ao conteúdo da prova.

 

Até que, a poucos minutos do último fechamento do jornal, Reynaldo Fernandes, então presidente do Inep, deu a palavra final. As questões que eu havia decorado eram, sim, parte da prova que seria aplicada no sábado e no domingo. Desliguei rapidamente o telefone, colocamos as aspas dele no texto e descemos a página (ou seja, mandamos o material para a gráfica). Depois de mais de 17 horas de trabalho, fui para casa de madrugada, ainda atônita com a notícia que acabara de revelar.

 

"Prova vaza e MEC decide cancelar Enem" foi a manchete que acordou o Brasil no dia 1o de outubro de 2009.

 

Renata Cafardo está escrevendo um livro com a história completa do roubo do Enem, bastidores, novas informações sobre o caso e suas repercussões até hoje. Será publicado pela editora Record.

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