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Jeduca | Associação dos jornalistas de educação
primeira pessoa - convidado

Como aprender a pedagogia do copo cheio

23/06/2016

É preciso nutrir um jornalismo que também realce o que existe de inspirador na educação

Gustavo Morita / Revista Educação

Faça um exercício simples: procure na internet as matérias mais recentes sobre educação nos principais portais e jornais. Não preciso ser vidente para prever o que você vai encontrar: a maioria das notícias será trágica, apontará os desarranjos do nosso sistema educacional. A descrição dos problemas tem, sem dúvidas, clara importância – sem descobrir as lacunas, seguiríamos cegos em relação às falhas que fazem fila e ganham fôlego. Mas se habitamos apenas um ponto de vista despotente, o olhar também fica turvo e limitado, pois o cenário da educação não é feito apenas de tormenta. Impregnados da reflexão sobre o que há de inspirador hoje na educação do Brasil e do mundo, eu e mais três amigos empreendemos uma jornada por nove países (Brasil, Argentina, Estados Unidos, África do Sul, Inglaterra, Espanha, Suécia, Indonésia e Índia) em busca de iniciativas de educação com projetos consistentes e criativos, transformadores de comunidades.

 

Buscamos inspiração em outras culturas essencialmente por curiosidade em entender tendências presentes no mundo, mas ressaltamos que no Brasil existe um cenário abundante de iniciativas criativas. Insistimos no fato de que precisamos reescrever a narrativa contada a nós mesmos sobre nosso país. Em geral, essa história está contaminada por um interminável inventário de tragédias e por um ranço de povo colonizado que menospreza as próprias criações.

 

"Em um mundo inundado constantemente pelo esmigalhamento do que nele existe de boniteza, resgatar narrativas ligadas à potência é um desafio instigante"

 

Uma das ações retratadas no livro é o Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD), no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, uma organização com diversos projetos de educação que resgatam a cultura popular na formação de crianças, jovens e adultos. O educador Tião Rocha, criador do CPCD, inventou também a pedagogia do copo cheio, defendendo que, diante de um copo com um pouco de água, precisamos aprender a prestar atenção no lado meio cheio, porque olhar apenas para o lado meio vazio é diagnosticar e estimular a calamidade ao mesmo tempo. A provocação da pedagogia do copo cheio é o terreno sobre o qual fincamos os pilares dessa pesquisa que culminou no lançamento do livro Volta ao Mundo em 13 Escolas, disponível para download aqui: http://educ-acao.com. Foram mais de 300 entrevistas com alunos, professores, ex-alunos, gestores e famílias. Escolhemos as 13 iniciativas de educação depois de uma extensa pesquisa sobre propostas no mundo inteiro. Quando chegávamos em cada um dos lugares, já tínhamos um repertório coletado na investigação prévia para garantir que aquelas iniciativas eram realmente relevantes.

 

Em um mundo inundado constantemente pelo esmigalhamento do que nele existe de boniteza, resgatar narrativas ligadas à potência é um desafio instigante. Tião costuma falar que deveriam acrescentar um P na sigla IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). Ressalta que o IDH mede carências e o IPDH poderia medir potências (Índice de Potencial de Desenvolvimento Humano). Depois de encontrar o educador Tião, pergunto-me mais sobre como podemos nutrir com regularidade um jornalismo revelador de potências. Que reconhece movimentos ainda sutis, pistas de mudanças substanciais à vista. Que estimula no leitor a reflexão de que, se tantos são os dilemas e questões espinhosas, muitos também são os esboços de respostas, muitas são as soluções factíveis em circulação.

 

O Volta ao Mundo em 13 Escolas espalhou possibilidades de invenção. Leitores do Brasil inteiro se conectaram com pontos de vista que apontamos. Desde 2013, ano do lançamento do projeto, o tema das escolas inovadoras me levou à prática das cidades educadoras (sobre as quais posso falar mais em um texto futuro) e agora estou iniciando um livro sobre esse assunto, com foco em cidades do Brasil – nos lados cheios dos copos. Para começá-lo mais enfaticamente, estive presente no início do mês no Congresso Internacional de Cidades Educadoras, na Argentina, ao lado de um grupo de brasileiros. Sigo afirmando a importância de aprendermos a narrar o Brasil e a educação por meio de uma perspectiva que enfatize nossas potências. Assim não só afirmamos a necessidade de um outro imaginário de país, mas também aumentamos o reconhecimento de quem está promovendo transformações.

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