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Jeduca | Associação dos jornalistas de educação
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'Faculdade de papel' no Brasil; morte e mutilações na Colômbia

06/11/2017

Repórter da Zero Hora fala sobre investigação que desmascarou venda de certificados a médicos; um deles, colombiano, provocou uma morte e lesões em pelo menos 12 pacientes após cirurgias plásticas em Medellín

Costa: seis meses de investigação
Divulgação Estácio
Resultado de seis meses de trabalho, a série de reportagens Conexão Medellín-Porto Alegre, de Zero Hora, revelou os laços internacionais de uma organização criminosa especializada em fraudar títulos de ensino superior no Brasil com um médico colombiano que provocou morte e mutilações de mulheres em seu país.
 
Descobrimos que, com certificado obtido em instituição vinculada ao grupo de ensino brasileiro Facinepe, o médico Daniel Andrés Correa Posada passou a fazer cirurgias plásticas em Medellín, autoproclamando-se especialista e utilizando-se da fama da escola de medicina plástica brasileira.
 
O problema é que o Facinepe era uma "faculdade de papel". Nunca recebeu autorização do Ministério da Educação brasileiro para funcionar. Tampouco poderia conceder certificados de cirurgião plástico, como o recebido pelo cirurgião geral Posada.
 
Zero Hora viajou à Colômbia para contar a história das vítimas – uma delas, Diana Perez Giraldo, morreu em decorrência da cirurgia mal feita por Posada. Outras 12 mulheres sofreram lesões corporais.
 
Além de portar um certificado sem valor, Posada não esteve presente no mínimo de aulas exigidas para se especializar. Embora afirme que tenha cumprido o curso entre agosto de 2012 e julho de 2015, comprovamos que ele só entrou no Brasil em 7 de junho de 2014. Seu histórico acadêmico atesta 100% de frequência nas aulas. O que é falso.
 
A conexão estabelecida entre Brasil e Colômbia é a sequência de um trabalho que revelou fraudes no ensino superior no Brasil. Ela foi descoberta a partir da reportagem "O Homem da Faculdade de Papel", sobre a trajetória do advogado Faustino da Rosa Júnior, 34 anos, criador do Grupo Facinepe, que vendia títulos sem valor legal de cursos de pós-graduação em Medicina e outras centenas de cursos para médicos brasileiros e sul-americanos.
 
Com mais de mil alunos no Brasil e no exterior, o Grupo Facinepe tinha como reitor o ex-prefeito de Porto Alegre, José Fortunati, e como vice-reitor o subsecretário municipal de Administração, Carlos Fett. Os títulos eram emitidos em nome de uma faculdade do interior do Paraná que estava fechada havia seis anos.
 
Com a venda de títulos, Faustino fez fortuna e enganou até importantes personalidades nacionais. Entregou diplomas de doutor honoris causa para o procurador da República Deltan Dallagnol, investigador da Operação Lava-Jato, para o dono da rede de televisão SBT, Silvio Santos, e para o fundador da Igreja Universal, bispo Edir Macedo.
 
O trabalho investigativo começou a partir da constatação de que o dono do Grupo Facinepe estava construindo um prédio clandestino em um bairro nobre de Porto Alegre. A partir desta informação, enviada por denúncia anônima à redação de Zero Hora, a reportagem descobriu que Faustino já tinha sido condenado por falsificação de diplomas pela Justiça de Porto Alegre, responde a processo pelo mesmo tipo de crime no Paraná e já tinha prestado informações falsas ao Ministério da Educação.
 
A partir daí, foi localizado um ex-diretor do Grupo Facinepe. Ele revelou que Faustino falsificou diplomas de Administração para ele e para 16 amigos. Os diplomas eram emitidos em nome da Facspar, faculdade de Mateus do Sul, interior do Paraná, fechada desde 2011. Localizamos a sede da faculdade, de portas trancadas. Falamos com o prefeito e o secretário de Educação da cidade. Eles confirmaram que não existia a tal Facspar.
 
O ex-diretor do Grupo Facinepe informou que Faustino teria emitido certificados de especialização em cirurgia plástica, não reconhecidos pelo Ministério da Educação ou pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. ZH teve acesso ao documento e ao histórico escolar do cirurgião geral colombiano Daniel Correa Posada, que teria cursado a especialização e obtido a titulação no Facinepe. Com base em cruzamento com dados oficiais, descobrimos que ele não esteve no Brasil no período do curso. Por meio da internet, apuramos que havia várias denúncias contra o médico em Medellín por conta de lesões corporais.
 
Decidimos viajar para a cidade colombiana. Lá o repórter Rodrigo Lopes, de ZH, rastreou pelo menos 12 vítimas – uma delas, morta menos de 12 horas após passar por um procedimento cirúrgico executado por Posada. Por meio de entrevistas com amigos e adversários, além de acesso a documentos da Promotoria de Antioquia, que investiga o cirurgião, foi possível construir um perfil do médico.
 
A reportagem é importante porque revelou irregularidades cometidas pelo Grupo Facinepe sem que as sociedades brasileira e colombiana tivessem conhecimento delas. Também desmascarou o advogado Faustino, que participava de eventos da alta sociedade e de programas de televisão como professor-doutor, título que ele não tem. 
 
Faustino, ao saber da apuração da reportagem, tentou uma liminar para impedir a publicação da matéria, mas o Judiciário negou. No pedido, citou que Zero Hora estava baseada em uma nota técnica do MEC. Não sabíamos da existência dela. Fomos atrás e a nota fulminava com o Facinepe, revelando fortes irregularidades, como venda de diplomas.
 
A divulgação dos fatos levou o Ministério da Justiça a publicar em site a verdadeira situação da faculdade (fechada desde 2011), alertando milhares de alunos que tinham títulos sem valor legal e outros a cancelarem matrículas no Facinepe.
 
A investigação jornalística também lançou luzes sobre um esquema criminoso internacional que tinha Porto Alegre como elo de distribuição de certificados sem validade de supostos cursos de especialização feitos por médicos estrangeiros que, ao retornarem a seus países, usavam a titulação para exercer a profissão.
 
A sociedade colombiana desconhecia que o médico Posada possuía titulação sem validade. Com esse documento, operava livremente, deixando um rastro de vítimas.
 
Acreditamos que cumprimos uma das máximas do jornalismo investigativo: revelar uma informação de interesse público que alguém deseja manter escondida.
 
Após a reportagem, o Grupo Facinepe fechou as portas. O ex-prefeito José Fortunati pediu demissão do Facinepe, o subsecretário Carlos Fett foi demitido da prefeitura e o Ministério Público Federal abriu investigação sobre o grupo.
 
A Ordem dos Advogados do Brasil instaurou processo ético-administrativo contra o advogado Faustino e a Justiça de Porto Alegre abriu processo para derrubar o prédio clandestino que ele estava construindo. A Justiça do Paraná poderá condenar Faustino pela segunda vez por crimes de falsificação de diplomas, abrindo a possibilidade de prisão, pois ele não seria mais réu primário.
 
A reportagem também obteve ampla repercussão na mídia colombiana, sendo reproduzida por emissoras de TV como a Noticias Uno. Seu alcance internacional serviu de alerta a pacientes potenciais de Posada. Acreditamos que, ao divulgarmos a má prática da medicina por parte de Posada, contribuímos para salvar vidas.
 
Após a divulgação da reportagem, o Ministério da Educação colombiano considerou nulos os certificados produzidos pelo Facinepe. A Procuradoria investiga o cirurgião. E a Câmara de Vereadores de Medellín realizou várias sessões para discutir como mudar as leis que regulamentam o exercício da cirurgia plástica.
 
 
 
 
* José Luís Costa ganhou o Prêmio Estácio de Jornalismo 2017 na categoria Regional Impresso com a reportagem "O Homem da Faculdade de Papel" 
 
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