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Jeduca | Associação dos jornalistas de educação
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O jornalista na escola e a ética na cobertura

23/11/2016

A cobertura da educação exige que o repórter transite no espaço da escola. Mas é preciso entrar de forma respeitosa e consciente nesse ecossistema complexo, com discernimento para entender o que acontece ali

Ambiente escolar fala por si só
Diogo Moreira/A2IMG
tenha em mente
É necessário conversar com os personagens do processo educativo. Mas isso não basta. É preciso também acompanhar a dinâmica das aulas e dos intervalos. O espaço da escola fala. As paredes contam histórias. Há muita informação que não chega entre aspas

O profissional de imprensa deve sempre se identificar como tal e deixar claro quais são os momentos em que as pessoas estão sendo entrevistadas. O diálogo precisa ir além do ato da entrevista. Conversar com professores e, sobretudo, com alunos é essencial para formar um ponto de vista sobre o contexto retratado

Cuidados na abordagem dos estudantes não devem inibir o trabalho da imprensa ou circunscrever estes ou aqueles assuntos como proibidos. Ao contrário, devem estimular coberturas mais ricas, que levem em conta aspectos éticos, chegando aos mesmos efeitos sem expor moralmente os estudantes

A cobertura da imprensa na educação é desafiadora. Tornou-se, ao longo do tempo, algo semelhante ao exercício do jornalismo científico. Sua missão é traduzir um universo em que se misturam teorias pedagógicas, metodologias, procedimentos estatísticos, abordagens econômicas, sociológicas, filosóficas para um leitor que muitas vezes, ao final do dia, só espera que os filhos recebam uma boa educação.

 

Mas ao contrário do jornalista científico, que não precisa necessariamente entrar no laboratório para traduzir a ciência, é virtualmente impossível escrever sobre educação sem transitar no espaço da escola. Sim, é preciso entrar nesse ecossistema complexo onde vivem, convivem e se desenvolvem crianças, adolescentes, diretores, professores, inspetores, merendeiras, pessoal de limpeza, funcionários administrativos, famílias, vizinhos, comunidade. É o ambiente onde se constrói a esperança de uma sociedade melhor e, ao mesmo tempo, um espaço cheio de frustrações e de desigualdade.

 

Essa reflexão é necessária tão somente para dizer que entrar na escola deve ser um ato consciente. O que ver? Quem ouvir? Quais são as perguntas pertinentes? Como entender o que se passa?

 

Sem dúvida, é necessário conversar com os personagens do processo educativo. Mas não basta. É preciso também ouvir seus ruídos, ver a algazarra dos intervalos, acompanhar a dinâmica da aula, perceber as contradições declaradas ou implícitas que existem em todo espaço escolar. O espaço da escola fala. As paredes contam histórias. Há muita informação que não chega entre aspas.  

 

O objetivo deste texto, portanto, é auxiliar ao jornalista a chegar à escola, de forma ética, respeitosa com todas as histórias de vida que se desenrolam ali.

 

A escola em nossa cabeça

 

Este é um exercício de aproximações sucessivas, que requer de início o esforço de se despir de preconceitos. Afinal, todos nós temos pelo menos duas escolas em nossas mentes: aquela ou aquelas em que estudamos, e o sonho impreciso do que deveria ser a educação ideal. Todos temos as nossas.

 

Mas, como em todos os coletivos humanos – as cidades, os bairros, as torcidas, as famílias –, não há uma instituição escolar igual à outra, como tampouco há a receita de um modelo perfeito, com regras simples que produzem sempre os mesmos resultados.

 

Por isso, no exercício do bom jornalismo, não se deve entrar em escola para comprovar teses pré-concebidas, buscar aspas e personagens para textos já montados. É preciso um exercício real de escuta e observação, que possibilite nos aproximarmos o quanto mais possível do também idílico desafio de retratar fielmente a realidade.

 

É preciso levar em conta que o jornalismo educativo é uma atividade relativamente nova e a escola também é uma instituição que amadurece na sua relação com a imprensa. Não está habituada às práticas jornalísticas e, muitas vezes, se mostra frustrada por sentir a cobertura da imprensa muito distante da sua realidade.

 

De forma genérica, há dois grandes campos de ação para a investigação jornalística na escola. O primeiro deles é, evidentemente, o da entrevista. É preciso ouvir as pessoas envolvidas. Claro, a escola tem seus porta-vozes, que precisam ser respeitados, como o diretor, os professores das áreas envolvidas.

 

Mas o diálogo precisa ir além do ato da entrevista. Conversar com professores e, sobretudo, com alunos é essencial para formar um ponto de vista sobre o contexto retratado. E este é um cuidado básico a ser tomado: por natureza, a escola é fruto da diversidade. Da diversidade de pessoas, de histórias e, portanto, de visões.

 

É muito importante, assim, que o profissional de imprensa sempre se identifique como tal e deixe claro quais são os momentos em que as pessoas estão sendo entrevistadas.

 

É um direito dos atores da comunidade escolar ter a possibilidade de discernir o que é uma conversa com o jornalista de uma entrevista a um profissional de imprensa, que será amplamente veiculada.

 

Da mesma forma, como deve ser o procedimento normal do exercício jornalístico em qualquer área, é preciso o cuidado de separar fatos e versões, confrontando as declarações com os seus eventuais contraditórios, quando necessário.

 

Entrevistando crianças e adolescentes

 

Se a ética é essencial quando a reportagem envolve adultos, que podem responder civilmente por seus atos, o que dirá quando são crianças e adolescentes os envolvidos?

 

Este é um cuidado particularmente importante para os profissionais de imprensa. Até porque, é preciso lembrar, há uma legislação específica sobre os direitos da infância e da juventude, expressa principalmente no ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente).

 

São muitas as razões para se ter procedimentos éticos particularmente rígidos. Em primeiro lugar, todo adulto sabe o quanto é tênue a fronteira entre o mundo real e a fantasia. Levar ao pé da letra e publicar acriticamente declarações de crianças pequenas pode induzir a grandes erros. É preciso, sim, ouvi-las, mas também fazer uma checagem criteriosa.

 

Da mesma forma, nem sempre é fácil entrevistar crianças, que tem seu modo peculiar de pensar e se expressar. Muitas vezes, pode ser tentador – e eticamente reprovável – induzir crianças e adolescentes a falarem aquilo que se deseja ouvir, repetindo frases formuladas pelo entrevistador, depois publicadas como declarações originais.

 

Por fim, certas reportagens podem expor as crianças e adolescentes de forma inesperada para eles, gerando constrangimentos e problemas no convívio sociais. É um exemplo típico matérias que tratam de fatores como obesidade, bullying, reprovação, violência.

 

Se podem render bons personagens para notícias que no dia seguinte serão velhas, é preciso lembrar que os seres humanos que permanecerão vivendo naquela comunidade vão conviver por muito tempo com os frutos do preconceito social.

 

Nunca é demais lembrar: tais cuidados não devem inibir o trabalho da imprensa ou circunscrever estes ou aqueles assuntos como proibidos. Ao contrário, devem estimular coberturas mais ricas, que levem em conta aspectos éticos, chegando aos mesmos efeitos sem expor moralmente crianças e adolescentes.

 

O espaço fala

 

O diálogo é essencial. Boas entrevistas são insubstituíveis. Mas é difícil formar um ponto de vista mais global da escola sem olhar para seu espaço. A educação parece, muitas vezes, um mundo de belos ideais nos textos, nas falas e até mesmo nos números, mas é na realidade mais concreta que ela se materializa.

 

É perigoso – até mesmo do ponto de vista do bom jornalismo – descolar a escola do contexto em que ela está inserida. Por trás das estatísticas está a vida real e as suas contradições.

 

Ao visitar a escola, é preciso antes ver o lado de fora do muro. Qual é o contexto social em que está inserida? Há iluminação nas ruas? Há esgoto tratado? Asfalto nas ruas? Como são as casas do entorno?

 

Não se trata simplesmente de verificar se existe ou não pobreza, como se vulnerabilidade social se expressasse de uma única maneira. Mesmo regiões pobres podem ter uma presença mais ou menos efetiva do poder público, podem ter uma vida comunitária mais atuante ou equipamentos sociais mais ou menos dignos. É bom saber, apenas como exemplo, se os alunos se sentem seguros no trajeto. Muitos estudos associam a qualidade do clima escolar – fator importante para a aprendizagem – à sensação de segurança dos alunos no trajeto para a escola.

 

Até mesmo os muros e as vidraças podem mostrar como a comunidade vê a escola. Segundo alguns autores, escolas frequentemente vandalizadas são aquelas que, por diversas razões, não estão em harmonia com sua comunidade. Ou, em outras palavras, são aquelas que a comunidade não vê como algo que lhe pertença – por exemplo, por não ter acesso à quadra esportiva, não ter a entrada permitida nos eventos ou fazer parte de contextos de alta exclusão social.

 

Hoje é possível acessar dados sobre as comunidades em que estão as escolas, por diversos sites oficiais ou de organizações não-governamentais.

 

Compreender esse contexto também faz parte de uma cobertura mais equilibrada e ética da educação, pois traduz as condições reais de aprendizagem.

 

Muito mais do que um espaço em que acontecem aulas, a escola é um espaço de múltiplas narrativas, de trajetórias humanas. A escola é, ela mesma, autora e parte da história da sociedade que a criou.

 

Dentro dos muros da escola

 

Dentro da escola, também, o espaço fala de forma eloquente. Apenas a título e exemplo, as condições de higiene dos banheiros muitas vezes são associadas a indicadores de baixa qualidade de convivência ou de resultados acadêmicos ruins. Explica-se: banheiros mal cuidados podem sugerir o descaso com que os alunos são tratados no ambiente escolar.

 

O tema do espaço não se restringe apenas às condições físicas, que podem estar também ligadas aos recursos disponíveis (cada escola é uma escola...). A vida escolar com frequência se traduz na configuração das salas, dos murais, das mesas. Por exemplo, é de se esperar de escolas em que haja protagonismo dos alunos na aprendizagem que seus trabalhos estejam expostos nas paredes.

 

Se os murais apenas servem para publicar avisos e notas, deve-se perguntar o que os alunos produzem e, se produzem, onde estão os seus projetos. Mais do que isso: é preciso ver o quanto os trabalhos sofreram interferências dos professores, perdendo a autenticidade.

 

Como um coletivo humano, a dimensão dos valores ligados ao respeito é fundamental para garantir a qualidade – seja o que for o que este substantivo defina – do projeto educativo.

 

É possível conhecer mais sobre a escola pelos espaços comuns mais ou menos cuidados, pelo ambiente dos professores, pela limpeza e pela organização.

 

O refeitório deveria ser, por exemplo, um espaço prazeroso, de boa convivência e impecável higiene. As quadras devem ser bolas, traves e outros recursos para a prática esportiva, mesmo que em alguns momentos sejam usados apenas para o lazer.

 

Tudo isso traduz uma gestão mais presente e detalhista, que busca propiciar as melhores condições de desenvolvimento das pessoas, e são fatores observáveis pelo jornalista – seja para subsidiar entrevistas mais ricas (sempre com a possibilidade do confronto de versões), seja para uma compreensão mais profunda da escola e da educação, para além de seus números.

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