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Jeduca | Associação dos jornalistas de educação
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O risco que a imprensa corre ao procurar novidades no Ideb

07/09/2016

Para ex-presidente do Inep, jornalista deve usar índice, que será divulgado nesta 5ª-feira, para fazer balanço da qualidade do ensino; olhar só para a comparação com o ano anterior pode levar a erros

Fernandes: mídia precisa evitar simplificações 'grosseiras' como superestimar rankings
Agência Brasil

 

Os momentos de divulgação de avaliações educacionais universais, como a Prova Brasil e o Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), fornecem uma boa oportunidade para se refletir sobre o desempenho educacional do país. Tais avaliações, por trazer informações relevantes sobre escolas e redes de ensino, são extremamente úteis para quem precisa tomar decisões educacionais: estudantes, pais de alunos, professores e gestores da educação. Em tais momentos costuma-se também intensificar a polêmica sobre os benefícios de tais avaliações e de dar ampla publicidade aos seus resultados. Ainda que as experiências com estes procedimentos proliferem em todo o mundo e diversos estudos apontem que suas vantagens superam seus possíveis efeitos negativos, alguns ainda resistem à idéia.

 

As principais observações feitas pelos críticos da ampla divulgação de avaliações universais estão relacionadas ao fato de o desempenho dos estudantes ser uma medida imperfeita da qualidade de ensino. Por exemplo, diversos estudos têm mostrado que a bagagem cultural dos estudantes é mais importante para seu desempenho do que as características das escolas, dos professores e dos diretores. Assim, a cobrança pelo bom desempenho em tais avaliações poderia gerar injustiças e desanimar os profissionais de ensino que lidam com um público mais carente. Por outro lado, se as escolas forem cobradas pelo desempenho de seus alunos, poderiam buscar meios inadequados para aumentar o desempenho médio dos estudantes, como excluir aqueles de baixo rendimento ou “estreitar” o currículo. Por fim, os resultados dessas avaliações não são imunes a erros de medida. Além dos conhecimentos e habilidades, o desempenho em uma prova pode depender de outros fatores como, por exemplo, da motivação e preparação específica dos estudantes para realizar o exame, das condições da aplicação, da sorte etc. Em pequenas escolas, os resultados de exames padronizados podem estar sujeitos a muito ruído.

 

Esses argumentos, ainda que considerados, não invalidam a importância de avaliações universais. Informações relevantes sobre a eficiência de determinada escola podem ser obtidas pela comparação com outras próximas e que tenham público similar, permitindo que os interessados separem o impacto da bagagem cultural dos estudantes do efeito resultante do trabalho da escola. Nesse sentido, a divulgação, pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), de um indicador das condições socioeconômicas da escola foi um avanço. É possível também adotar procedimentos para evitar outros riscos, como a exclusão de alunos de baixo rendimento. Focar o currículo nos conteúdos do exame pode ser positivo, caso ele se concentre nos conteúdos considerados mais fundamentais. Por fim, erros de medida podem ser amenizados por avaliar o desempenho da escola em mais de uma avaliação.

 

Como vimos, a ampla divulgação dos resultados de avaliações educacionais universais é de extrema importância. E, nesse sentido, a mídia tem um papel fundamental a desempenhar. Além de tornar os dados disponíveis, a divulgação deveria contribuir para uma leitura mais aprofundada dos resultados. Ainda que não exista uma única forma de interpretar os dados, a cobertura poderia trazer elementos que auxiliem na leitura dessas avaliações. Por exemplo, dando destaque às escolas e redes de ensino que conseguem um desempenho superior àquelas que recebem um público similar e levantando hipóteses sobre as causas desse bom desempenho. O que poderia ser feito com o auxílio de pesquisadores e especialistas em educação e em avaliações. Mais importante, a cobertura não pode cair em simplificações grosseiras dos resultados que, além de não ajudar na reflexão de como melhorar a educação, podem contribuir para aumentar as resistências que alguns profissionais da educação têm em relação às avaliações educacionais em larga escala. Esse é o caso de simplesmente publicar um ranking de escolas, onde as mais bem colocadas são interpretadas como oferecendo um ensino de melhor qualidade. A principal alegação de professores e diretores acerca dos motivos de sua oposição às avaliações externas diz respeito à injustiça. Eles argumentam que os resultados dessas avaliações são demasiadamente influenciados por aspectos que estão fora do seu controle.

 

Talvez a principal dificuldade que a divulgação de avaliações traz para jornalistas encarregados de sua cobertura tem a ver com a falta de novidade. Mudanças na qualidade da educação tendem a ser lentas, de modo que não devemos esperar que os novos resultados do Ideb e da Prova Brasil sejam muito diferentes dos verificados na edição anterior. Para grandes municípios, Estados e o país como um todo pode ser difícil interpretar pequenas variações no desempenho (pequena melhora/piora ou flutuação estatística?). Para escolas e pequenos municípios, flutuações significativas podem decorrer de erros de medida devido, por exemplo, a um problema na aplicação do exame. Nesse caso, a busca por novidades pode levar o jornalista a destacar erroneamente escolas como tendo uma evolução (boa ou ruim) excepcional na qualidade.

 

Acredito que o mais oportuno seria aproveitar a divulgação dos resultados da Prova Brasil e do Ideb para fazer um balanço da qualidade da educação básica, não se restringindo apenas ao último resultado em comparação à edição anterior. Melhorar nossa educação é tarefa primordial e avaliações como a Prova Brasil e o Ideb são fundamentais para detectar problemas e fazer diagnósticos. Mas, infelizmente, os resultados dessas avaliações não trazem consigo a identificação dos motivos para tal desempenho e, muito menos, a prescrição de como melhorar o desempenho. Isso requer uma análise mais aprofundada. Promover um debate de alta qualidade de como avançar na educação do país deveria ser o principal compromisso da mídia especializada.

 

 

 

* Reynaldo Fernandes é professor titular do Departamento de Economia da USP, em Ribeirão Preto-SP, e ex-presidente do Inep (2005-2009)

 

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