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Jeduca | Associação dos jornalistas de educação
primeira pessoa - convidado

Pecados da universidade

25/09/2017

Senador Cristovam Buarque atribui responsabilidade pela crise nas universidades públicas do Rio aos governantes, mas acredita que 'pecados' cometidos pelas instituições contribuíram para a 'tragédia' atual

Assembleia de professores da Uerj para discutir sobre greve
Agência Brasil

Nota da Jeduca

 

Na análise do acordo que garantiu socorro financeiro da União ao governo do Rio, fechado no início do mês, o Ministério da Fazenda sugeriu ao estado que, caso a crise fiscal permaneça, recorra à “revisão da oferta de vagas no ensino superior”. Apesar das alegações da Fazenda, de que a revisão foi apenas mencionada como uma medida possível para conter o rombo das contas estaduais, a manifestação do ministério aumentou a apreensão sobre o futuro das universidades estaduais fluminenses.

 

Com os atrasos no pagamento de funcionários, professores e fornecedores e a falta de verbas para custeio e manutenção, a situação das instituições estaduais de ensino superior do Rio é dramática. E serve de alerta para o conjunto das universidades públicas do país nestes tempos de cortes orçamentários severos.

 

A Jeduca convidou dois especialistas para comentar o tema, o professor associado da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) André Lázaro e o ex-reitor da UnB (Universidade de Brasília) Cristovam Buarque, senador pelo PPS-DF. André Lázaro cita dados estatísticos para afirmar que o Rio precisa de mais (e não menos) vagas na universidade pública. E ressalta a importância específica da Uerj, cuja comunidade reúne mais de 50 mil pessoas. “É surpreendente que gestores da área econômica estadual e federal sejam tão pueris com a reputação de instituições públicas”, diz Lázaro no artigo (leia aqui).

 

Cristovam, por sua vez, atribui a responsabilidade pela “asfixia” das universidades públicas aos governantes, seja por incompetência, populismo ou corrupção. Mas também chama a atenção para os “pecados” das instituições de ensino superior, entre eles o de “terem ficado alheias à péssima qualidade da educação de base” e o de terem se conformado “em ser uma escada social para seus alunos, sem se preocupar em ser uma alavanca para o progresso do país”. Lei abaixo o artigo do senador, versão revista e ampliada de um texto publicado no dia 12 deste mês pelo "Correio Braziliense".

 

 

Pecados da universidade

 

O futuro de um país tem a cara da escola onde estudam suas crianças no presente. Na atual sociedade baseada no conhecimento, o futuro tem também a cara de suas universidades, onde os jovens se preparam para formar os fundamentos da ciência, da tecnologia, das inovações, nas artes, nas filosofias, na economia, nas engenharias, medicinas. Cortar verbas para a universidade é como interromper transfusão de sangue para o país.

 

Apesar disto, o Brasil assiste à crise da Uerj como se não fosse uma tragédia de dimensões catastróficas, simbolizando uma forte ameaça ao futuro. Ainda mais grave, a crise desta universidade é mais visível devido à falência do governo do estado do Rio de Janeiro, mas é apenas um exemplo da crise de todo o sistema universitário brasileiro. Todas as universidades federais, estaduais e municipais vêm perdendo recursos desde 2015 e enfrentando dificuldades, perdendo professores, sacrificando pesquisas, cortando direitos de seus alunos e servidores.

 

Seria um grave erro limitar a responsabilidade desta crise apenas aos governos, especialmente Dilma e Temer. Basta lembrar que a universidade brasileira gasta anualmente, por aluno, mais do que outras boas instituições internacionais de ensino superior: as nossas gastam em média US$ 13,5 mil, enquanto Portugal gasta US$ 11 mil; a Espanha, US$ 12,1 mil; os ricos países da OCDE, com algumas das melhores do mundo, gastam US$ 15,8 mil; as asiáticas, cujas universidades estão no topo da qualidade mundial, gastam menos.

 

A universidade brasileira precisa entender seus próprios pecados. Perceber que há décadas estão preparando o terreno para a atual crise do ensino superior brasileiro. Nossos governos, por irresponsabilidade na gestão de seus gastos e suas receitas, por populismo, eleitoralismo e corrupção, são os grandes culpados pela asfixia de nossas instituições de ensino superior e do futuro do Brasil, mas a universidade precisa saber reconhecer seu grave pecado de não ter alertado e denunciado o perigo deste comportamento fiscal cometido pelos governos.

 

A comunidade da Uerj, que paga hoje o preço da falência do governo do Rio de Janeiro, não fez movimentos contra o excesso de gastos com a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016, não se manifestou contra a disfarçada corrupção nas prioridades, pelo desperdício em obras caras, nem contra as absurdas vantagens pessoais injustificáveis nos gastos do Judiciário e do Legislativo, muito menos contra a óbvia corrupção que drenava recursos do estado. Essas obras superfaturadas levaram um governador à cadeia, graças à Justiça, não às críticas da comunidade universitária. A comunidade das universidades não denunciou o aparelhamento da máquina pública que levou à ineficiência e consequente falência do Estado.

 

As universidades brasileiras cometem o pecado de terem ficado alheias à péssima qualidade da educação de base, complacentes com o descuido dos governos em relação ao ensino fundamental e médio. Esta alienação é um pecado imperdoável cometido pela universidade contra o país, que sem educação de base de qualidade e igual para todos se faz improdutivo, violento, desigual; e pecado contra elas próprias, porque sem bons alunos vindos de boas escolas não há boa universidade. Mesmo assim, elas não têm se manifestado, não se envolvem politicamente em defesa da educação de base pública para todos, nem cuidam de formar os professores necessários para o ensino básico.

 

No mundo atual, cada cérebro que não tem acesso à educação de qualidade representa uma perda para a universidade e para o desenvolvimento do País, mas as instituições superiores têm fechado os olhos para esta tragédia, focadas apenas na sua própria crise, como se a educação de um povo só começasse depois do vestibular. A comunidade universitária não tem carregado a bandeira de elevar a qualidade da educação de base; ainda menos, a proposta de que os filhos dos pobres devem ter acesso a escolas com a mesma qualidade dos filhos dos ricos, em escolas com professores bem remunerados, bem preparados, bem dedicados, em edificações com boa infraestrutura e com os mais modernos equipamentos pedagógicos, todos em horário integral. A comunidade universitária tem pecado ao se recusar a ter um papel na erradicação do analfabetismo no Brasil.

 

A universidade brasileira vem cometendo o erro de se conformar em ser uma escada social para seus alunos, sem se preocupar em ser uma alavanca para o progresso do país e da humanidade. Concentrada em ser escada por meio de diploma, sem compromisso radical com a qualidade, ficou presa ao pecado da isonomia, desprezando o reconhecimento do mérito diferenciado de seus professores e alunos. Um dos pecados da universidade é considerar que alunos e professores não devem ser diferenciados conforme o mérito de desempenho de suas atividades acadêmicas. Da mesma forma como peca ao fazer a seleção de seus dirigentes por simples processo eleitoral, com pouca consideração em relação a qualificação acadêmica e gerencial dos escolhidos.

 

Além do pecado da isonomia pelo descuido ao mérito, a universidade comete um erro ao impor a ideia de que toda universidade e todo professor deve ter a prática simultânea da pesquisa, ensino e extensão, sem respeitar a vocação, tanto institucional quanto pessoal, para cada uma destas atividades.

 

Ao longo das décadas de democracia, a universidade vem cometendo o grave pecado do corporativismo. Passou a achar que os direitos de sua comunidade no presente são superiores a suas responsabilidades com a comunidade nacional no futuro. Defende suas reivindicações sem um pacto de conduta com a sociedade que a financia. Comete assim outro grave pecado: o do isolamento, confundido com autonomia, e se recusa a participar como auxiliar do setor produtivo da economia. Cada vez mais, no mundo inteiro, as universidades tendem a funcionar como think tanks para governos, e serem centros de pesquisas para inovação em convívio direto com empresas consolidadas a partir de startups. Este comportamento é agravado pelo atraso de nossos empresários e de nossos quadros políticos que não percebem a importância da inovação e o papel da universidade

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Ignorando o pacto de conduta que deveria ter com a sociedade para ser alavanca do progresso, as universidades estatais passaram a abusar de greves, ao ponto de a atual paralisação da Uerj, por falta de recursos devido à irresponsabilidade do governo, ser vista como se fosse apenas mais uma paralisação determinada por sua comunidade, e não como a falência da instituição por falta de pagamento dos salários a seus professores e servidores. Junta-se ao corporativismo, que amarra a universidade e impede seu avanço, o fato de a universidade ter-se partidarizado. É um pecado fazer alunos submissos aos professores e dirigentes despreparados, por serem do mesmo partido político, ou não reconhecerem professores competentes por não serem do seu mesmo partido. Esta partidarização termina contaminando as atividades, inclusive dificultando o debate e o diálogo, como se a comunidade se dividisse, cortada por muros separando alunos e professores conforme o partido a que pertence cada um.

 

A universidade não deve cometer o pecado anterior de ignorar o esgotamento que há décadas se anuncia: fiscal, ecológico, econômico, e nem o erro de não antever agora a crise que vai se agravar ao longo dos próximos anos e décadas, em um mundo que vai exigir austeridade. Preferiu acreditar que bastariam greves para conseguir os recursos que reivindicava. Agora não percebe que terá de disputar os recursos públicos com a educação de base, com a saúde, com as Forças Armadas, com a infraestrutura, com os subsídios à indústria; terá de se opor a privilégios a parlamentares e juízes e se opor à corrupção, mesmo por políticos de seu partido.

 

Para isso, não pode cometer o pecado de não buscar mais eficiência nos seus gastos e deve encontrar novas fontes de recursos. Muitas universidades do mundo são financiadas por suas pesquisas e patentes e por serviços que prestam. Não buscar eficiência e fontes alternativas é uma das provas do pecado da arrogância aristocrática das universidades estatais brasileiras, que exigem recursos públicos sem se preocuparem em mostrar o serviço que prestam ao país e à humanidade.

 

A universidade vem cometendo o pecado de não refletir nem se manifestar sobre o fato de que gratuidade não é grátis para o povo, esquecendo que os recursos que recebe são retirados de alguma outra prioridade. Confunde ser público, servir ao público, com ser estatal, pertencer ao Estado. Quando não vê suas universidades entre as melhores do mundo, o povo se sente no direito de se perguntar por que tirar dinheiro de outras prioridades mais imediatas para colocar em suas instituições de ensino superior públicas.

 

A universidade tem cometido o pecado capital para uma instituição de ensino superior: o acomodamento intelectual. Seus professores e alunos estão prisioneiros dos ensinamentos tradicionais, dentro de cada departamento. Com este comportamento, comete o pecado de não ser vanguarda do pensamento: não estão saindo dela as ideias para entender as grandes transformações em marcha no mundo; tampouco está usando os novos instrumentos que hoje permitem o ensino a distância, atendendo a milhões de pessoas. Neste tempo de globalização, desequilíbrio ecológico, falência de ideologias, surgimento de inteligência artificial, fim do emprego, surgimento de “mediterrâneos invisíveis” dividindo a humanidade dentro de cada país, os novos pensamentos para um novo humanismo não estão despontando de dentro das universidades.

 

Não entender que o processo de geração e transmissão de conhecimento se internacionalizou tem sido um dos maiores pecados da universidade, que comete o erro de não se avaliar nem se comparar com exemplos de outros países. Nunca o Brasil e o mundo precisaram tanto de um pensamento novo, que deve surgir nas universidades. Ela precisa se refundar para os novos tempos em marcha, entendendo seus pecados.

 

É um pecado não ver que estas ideias são antigas. Há décadas, dezenas de ensaios propõem mudanças na universidade. Cito apenas dois livros: "A aventura da universidade" (1994) e "A universidade na encruzilhada" (2014), ambos publicados por uma editora universitária, a Unesp, mesmo assim pouco considerados pela comunidade universitária. A crise atual, especialmente na gravidade da situação vivida pela Uerj, pode ser um elemento para o despertar dos nossos pecados.

 

Cristovam Buarque é senador pelo PPS-DF, ex-ministro da Educação e ex-reitor da UnB

 

 

 

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