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Jeduca | Associação dos jornalistas de educação
primeira pessoa - convidado

Quando é preciso reinventar seu superpoder

30/08/2017

Hoje gerente de produtos do JOTA, site inovador de notícias jurídicas, jornalista conta como se reinventou profissionalmente a partir de mestrado na Universidade Northwestern, de Chicago

Knight Lab da Northwestern
Northwestern University

Pela janela do prédio de tijolos vermelhos, o outono de Evanston, cidade vizinha a Chicago, pintava a paisagem de amarelo, vermelho e todas as microtonalidades alaranjadas que existem entre um e outro. No comando da aula, a primeira do ano letivo, a professora cobrava leituras de férias, explicava como seriam as avaliações e o projeto final e pedia para que cada um se apresentasse. Os alunos eram quase todos jovens adultos brancos e ricos, com pouca ou nenhuma experiência profissional. Bem-vindos a uma sala de aula da Northwestern, universidade onde passei um período divisor de águas na minha carreira como jornalista.

 

Havia um ano e meio que eu me preparava para esse mestrado, mas, para além de todo o conto de fadas que eu havia criado, começava naquele momento um ciclo nada fácil de constante reinvenção de mim mesma. Tudo ali era novo: tornar-me novamente estudante, sair da zona de conforto das minhas redes sólidas de família-amigos-emprego, deixar o país, mergulhar em outra cultura e… virar jornalista num outro idioma.

 

Os colegas vão me entender. Pela natureza da nossa profissão, normalmente, a comunicação para nós é algo que acontece sem grandes esforços. Somos capazes (ou deveríamos) de explicar temas complexos de forma clara e objetiva e, quando a situação requer, podemos ser mais sofisticados ainda e emocionar, criticar ou usar de sarcasmo e ironia.

 

Ao tentar fazer tudo isso em inglês, eu me vi que meu superpoder – a minha capacidade dizer o que queria, como eu queria – tinha se tornado minha fraqueza maior.

 

Não que eu não pudesse escrever de maneira correta em inglês. Os anos de curso de inglês pagos com muito sacrifício pelos meus pais não tinham sido em vão, mas nem de longe resolviam meu problema. Mesmo atividades corriqueiras, como mandar um e-mail para meu orientador pedindo uma indicação de leitura, se transformavam em uma tarefa longa e árdua. Escrever um artigo, preparar uma apresentação oral ou qualquer atividade normal da vida acadêmica demandava tempo e energia. No fim do dia, quando a turma se animava para um happy hour, tudo o que queria o silêncio em que nenhuma língua era falada. Nem o português.

 

Esse percalço inicial foi, acima de tudo, um convite a repensar que tipo de jornalista eu queria e poderia ser. O meu processo de busca por novas maneiras de fazer jornalismo já tinha começado uns anos antes, quando integrei a equipe que lançou o Porvir, uma agência de notícias especializada em educação e inovação. Lá, fui experimentando jornalismo não tradicional de diversas maneiras, ao participar do desenho inicial do site, ao me envolver com a articulação de parcerias e pelo trabalho próximo com os times de design e desenvolvimento para a criação de projetos interativos.

 

Mas o que antes era um processo paulatino de mudança tinha se tornado um imperativo: eu precisava me reinventar no jornalismo. Afinal, a indústria do conteúdo estava (e está) em transformação e só dependia de mim usar bem a oportunidade do mestrado para desenvolver habilidades novas.

 

O meu programa, "Mídia, estratégia e liderança", me permitia escolher as disciplinas que eu gostaria de cursar. Com essa liberdade, me dediquei a assuntos que abordavam desafios do jornalismo hoje, como identificação de audiência, medição de impacto, empreendedorismo na indústria da notícia, modelos de negócio, programação, narrativas digitais, experiência do usuário, jornalismo de dados. Para minha grata surpresa, existia uma infinidade de temas complementares à minha formação tradicional no jornalismo, forjada nos meus quatro anos na Folha de S.Paulo, que me pareciam absolutamente urgentes para a indústria e pertinentes para a minha carreira. Meu trabalho final, sobre iniciativas brasileiras de jornalismo e suas formas de monetização, ainda está disponível no Medium, mas já está defasado.

 

Além dos estudos propriamente ditos, outras duas experiências me ajudaram na redescoberta dos meus superpoderes: uma fellowship de verão no Knight Lab instalado na faculdade e um ano de trabalho no EdSurge, uma startup verticalizada em notícias da indústria de edtech na região de São Francisco, nos EUA.

 

No Knight Lab, desenvolvi um projeto de jornalismo dinâmico com a Lingwei Chen, uma cientista de dados da Universidade de Chicago. Usamos jornalismo de dados, dataviz e geração automática e personalizada de textos para explicar o imbróglio da crise das escolas públicas da cidade, que então vivia seu auge. Escrevi sobre a experiência de começar a arranhar em programação e a alegria de ver um produto jornalístico pronto neste post.

 

Já no tempo que eu passei no EdSurge, ajudei a startup a desenvolver seu departamento de pesquisa e desenvolvimento. O EdSurge surgiu em 2012 como uma newsletter sobre os movimentos da indústria de edtech. Com o tempo, a empresa foi crescendo e oferecendo outros produtos a partir da informação.

 

Minha função era trabalhar na intersecção das áreas de desenvolvimento (com engenheiros de software), produção de conteúdo (com jornalistas e pesquisadores) e UX (com designers de user experience, ou experiência do usuário). Não sendo um ás em nenhuma dessas áreas, mas transitando entre elas com algum conforto, liderei pela primeira vez times multidisciplinares com desenvolvimento ágil. Essa técnica muito conhecida do pessoal da programação quebra a entrega final, normalmente um produto que envolve tecnologia, em entregas menores, de maneira que os deadlines são constantes, mas os riscos são menores. Nos projetos em que trabalhei, importava práticas da indústria da tecnologia para o jornalismo.

 

Quando eu menos percebi, me vi usando Slack, Trello, Zoom, Invision, Zeplin, Google Analytics, ChartBeat, CrazyEgg, Buffer e falando em scrum, demo day, MVP (mínimo produto viável, em português), stress testing, iteração, roadmap… A quantidade de palavras novas, com ou sem tradução para o português, era enorme. No final do meu período lá, colocamos no ar microsites e produtos adjacentes sobre ensino personalizado, tendências em educação e tecnologia, quem faz e para que áreas vão os investimentos de edtech, adoção de tecnologia em sala de aula e redesign de escolas.

 

O desafio de usar todo o aparato à disposição das indústrias de tecnologia para otimizar o processo jornalístico era novo para todo mundo, mesmo para os colegas que já tinham anos de experiência no Vale do Silício. Estávamos todos aprendendo juntos.

 

Em outros tempos, o jornalismo era basicamente composto por reportagem (texto ou áudio ou vídeo), edição e publicação. Agora, porém, esse ciclo se tornava muito mais complexo e incluía: definição de escopo de projeto e viabilização financeira, identificação de produtos e subprodutos de interesse do cliente e da organização, análise de audiência, pesquisa e reportagem, edição de conteúdo, design, desenvolvimento de software, planejamento e execução de produtos não virtuais (eventos, por exemplo) e medição de impacto de tudo isso.

 

Com esse ciclo se tornando mais complexo, não me faltaram áreas para experimentar e testar novas habilidades. E foi transitando entre essas possibilidades que eu entendi que meu novo superpoder era, na verdade, um superpoder antigo, mas repaginado. Eu entendo de contar histórias. Só que no mundo de hoje, a história linearmente contada chega a apenas uma parte dos leitores. Há inúmeras maneiras de contar a mesma história e torná-la mais rica, mais adequada e mais palatável a uma gama maior de usuários. Dialogar bem com a tecnologia é crucial para dominar esses outros formatos. E isso passou a ser requisito para qualquer jornalista, e não apenas os que estão em cargos de chefia.

 

Dois anos depois daquela aula em que me intimidei com a desenvoltura dos meus colegas norte-americanos, percebo o quanto eu aprendi e o quanto essa minha curva pessoal de aprendizado está ainda em ascensão e tenho a alegria de poder continuar a me desenvolver profissionalmente como gerente de produtos do JOTA. Há muitas mudanças em curso e muitas iniciativas de jornalismo no Brasil e fora mostrando o que pode ser feito. A nós, jornalistas, não nos faltam oportunidades de reinventar ou aprimorar nossos superpoderes.

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